Em sua preocupação em harmonizar razão e fé, João Paulo II insistia em recuperar a tradição tomista porque São Tomás, na Idade Média, foi o primeiro pensador a realizar esse trabalho, ressaltando a plena autonomia da razão em face da fé, sem o risco de aceitar a tese da dupla verdade: uma verdade que é própria da razão e outra que é afirmada pela fé, tese sustentada pelos averroístas latinos. Assim, o presente artigo, sem maiores pretensões, deseja apresentar aos alunos do Curso de Filosofia da PUC Minas, algumas pistas para um estudo do pensamento tomista e sugestão de leituras atuais e abalizadas sobre esse tema.
O filósofo jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, falecido em maio de 2002, durante sua profícua atividade intelectual, antecipou o desejo de João Paulo II, publicando importantes textos atualizando o pensamento de São Tomás.
Embora tenha vivido em um exíguo espaço de tempo, São Tomás de Aquino (1225-1274) produziu uma extensa obra: Comentário sobre as sentenças, Suma contra os gentios e a famosa SumaTeológica. Para que se tenha uma visão geral desse grande pensador, são apresentadas, abaixo, algumas teses que contêm o essencial de sua filosofia teorética, que foram resumidas pelo jesuíta Guido Mattiussi, professor na Universidade Gregoriana, de Roma. Em 1916 a Santa Sé aprovou esse resumo e
a Sagrada Congregação dos Seminários o recomendou aos estudantes. O texto, aqui dividido didaticamente em quatro tópicos, chegou ao autor deste artigo através do Pe. Dr. Celso de Carvalho (1913-2000), professor de Filosofia no Seminário Arquidiocesano de Diamantina, que foi aluno do Padre Mattiussi, em Roma, na década de 1940.
I Metafísica
1. Potência e ato de tal modo dividem o ente, que tudo quanto existe ou é ato puro ou resulta necessariamente de potência e ato como suas partes ou princípios intrínsecos.
2. O ato, como perfeição, só é limitado pela potência, que é capacidade de perfeição. Portanto, na ordem em que há um ato puro ele é necessariamente infinito e único; pelo contrário, onde ele é finito e multíplice, aí ele entra em verdadeira composição com a potência.
3. Por isso, na absoluta razão (conceito, aspecto) do ser mesmo, só Deus é que subsiste, uno e simplicíssimo; tudo o mais que participa do ser tem uma natureza, na qual o ser é contraído; tudo o mais consta de essência e existência como princípios distintos.
4. O ente (denominação que lhe vem do esse ou ser) não é predicado univocamente de Deus e das criaturas, mas não é predicado tampouco equivocamente; mas analogicamente – tanto por analogia de atribuição como pela analogia de proporcionalidade.
5. Além disso, há em toda criatura a composição real de sujeito subsistente com formas acrescentadas secundariamente, isto é, acidentes; essa composição, porém, não poderia ser entendida, se o esse não fosse realmente recebido numa essência distinta.
6. Além de acidente absoluto, existe ainda o relativo (relação ou ad aliquid). Com efeito, embora o ad aliquid não signifique no seu conceito (ratio) exato, algo inerente a algo, tem, frequentemente, sua causa nas coisas reais e, portanto, numa realidade distinta do sujeito.
7. A criatura espiritual é absolutamente simples na sua essência. Resta-lhe, no entanto, uma dupla composição – essência e existência; ou substância e acidentes.
II Somatologia
1. Quanto à criatura corporal, é composta, na sua mesma essência, de potência e ato; tais potência e ato na ordem da essência recebem nomes de matéria e forma.
2. Nenhuma dessas duas partes tem o ser por si nem é produzida ou se corrompe per se, nem é colocada entre os predicamentos a não ser reductive, como princípio substancial.
3. Embora a extensão em partes integrantes acompanhe a natureza corporal, não é a mesma coisa para o corpo ser substância e ser de tal quantidade (quantum). Com efeito, a substância por si mesma (ratione sui) é indivisível, não como ponto mas como algo que está fora da ordem da dimensão; a quantidade, que confere extensão à substância, difere realmente da substância e é um verdadeiro acidente.
4. A matéria marcada pela quantidade é o princípio de individuação, isto é, da distinção numérica (que não pode existir nos puros espíritos) entre dois indivíduos da mesma natureza específica.
5. É também graças à quantidade que um corpo fique circunscritivamente locado e só possa estar, desse modo, em um só lugar, qualquer que seja a potência.
6. A densão dos corpos é bipartida: viventes e não-viventes. Nos viventes, para que no mesmo sujeito existam per se parte movente e parte movida, uma força substancial chamada alma exige uma disposição orgânica ou partes heterogêneas.
7. As almas de ordem vegetal e sensitiva de forma alguma subsistem por si nem são produzidas por si, mas são tão somente por princípio graças ao qual o vivente existe e vive, e – uma vez que dependem totalmente da matéria – corrompido o composto, automaticamente se corrompem per accidens.
III Psicologia
1. Diversamente às almas vegetal e sensitiva, a alma humana subsiste por ela; quando pode ser infundida num corpo suficientemente disposto, é criada por Deus e, por sua natureza, é incorruptível e imortal.
2. Essa alma racional une-se de tal modo ao corpo, que é sua forma substancial única; por ela o homem existe como homem, e animal, e vivente, e corpo, e substância e ente. Portanto ela confere ao homem todo grau essencial de perfeição, além disso comunica ao corpo o ato de ser, graças ao qual ela mesma existe.
3. Brotam da alma humana, como resultados naturais, duas espécies de faculdades: orgânicas e inorgânicas; aquelas (entre as quais estão os sentidos) radicam-se no composto (corpo e alma); estas, só na alma. Portanto, a inteligência é uma faculdade intrinsecamente inorgânica.
4. A faculdade intelectual acompanha (sequitur) necessariamente a imaterialidade, e isso de tal modo que os graus de afastamento da matéria são também os graus da faculdade intelectiva. O objeto adequado da intelecção é o ente comum; mas o objeto próprio da inteligência humana, no estado atual de união (com o corpo) é limitado às qualidades abstraídas das condições materiais, isto é, os universais.
5. Portanto, é das coisas sensíveis que recebemos o conhecimento. Uma vez, porém, que o sensível não seja inteligível em ato, além do intelecto formalmente inteligente, deve-se admitir na alma uma força ativa que abstraia dos fantasmas as espécies inteligíveis.
6. Por essas espécies inteligíveis conhecemos diretamente os universais; é com os sentidos que atingimos as coisas singulares, mas depois também com a inteligência, por analogia e um retorno aos fantasmas chegamos ao conhecimento das realidades espirituais.
7. A vontade segue o intelecto, não o precede; ela deseja necessariamente o que se lhe apresenta como bem que satisfaça o desejo, de toda parte; mas entre os bens que sejam propostos a um juízo mutável, ela escolhe livremente. Portanto a escolha segue-se ao juízo prático último; mas é a vontade que faz que seja juízo último.
IV Teodiceia
1. Que Deus existe, não o percebemos por intuição imediata nem o demonstramos a priori; demonstramo-lo a posteriori, isto é, pelas coisas que foram feitas levando a argumentação dos efeitos para a causa: portanto, parte-se:
a) Das coisas que são movidas mas não podem ser o princípio adequado do seu movimento para o primeiro movente imovido;
b) Do processo das coisas mundanas de causas subordinadas entre si, à Primeira Causa não causada;
c) Das coisas corruptíveis, que indiferentemente se referem ao ser e ao não ser, ao Ser absolutamente necessário;
d) Das coisas que, numa gradação do menos ao mais, segundo diminuídas perfeições de ser, viver e compreender, são, vivem e compreendem, Àquele que é o maximamente vivo, inteligente, vivente e ente;
e) Finalmente, da ordem do universo a uma Inteligência que pôs ordem, dispôs e dirige ao fim as coisas.
2. A essência divina, por identificar-se com a “atualidade exercida” do próprio ser ou por ser o próprio ser subsistente, é-nos proposta, constituída como que no seu conceito (ratione) metafísico; e por isso mesmo dá-nos a razão de sua infinitude na perfeição.
3. Portanto, pela própria pureza do seu ser, Deus se distingue de tudo o que é finito. Daí se conclui:
a) que o mundo não pôde provir d’Ele a não ser por criação;
b) que a virtude criadora, pela qual primeiramente é atingido o ser enquanto ser, nem por milagre é comunicável a qualquer criatura finita;
c) que nenhum agente criado pode influir no ser qualquer efeito que seja senão por uma noção recebida da causa primeira.
Autor: Prof. Pe. Ismar Dias de Matos, PUC Minas. O presente texto é resultado de apontamento de aulas de Filosofia Medieval e faz parte de um artigo do autor “O humanismo filosófico de João Paulo II”, 2005, publicado em: http://www.ismardiasdematos.com.br/joaopaulo.pdf (as referências bibliográficas completas estão nesse site)
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Curiosidades da Sagrada Escritura
Texto já publicado em 03/06/2013, às 11:46, em: http://www.portalecclesia.com/2013/06/curiosidades-da-sagrada-escritura.html
O primeiro elemento da criação divina, conforme a Sagrada Escritura, foi a luz, que em hebraico é OR, iniciada com Álef (א). Os significados dessa palavra (OR) são incontáveis. Praticamente tudo aquilo que é bom é também luz. Moisés é luz; Jesus é luz! O Gênesis nos revela: “Deus disse: haja luz, e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas” (1,3-4). Curiosidade: a palavra OR, iniciada com a também muda letra Áin (ע), significa “pele”.
O Gênesis nos diz que Adão e Eva, criados para a imortalidade, tinham a pele coberta de luz (OR). Quando desobedeceram ao Criador e caíram, pelo pecado, descobriram sua fragilidade e se perceberam “nus”. Ou seja, a luz divina que recobria a pele deles desaparecera e aí, então, viram apenas a sua pele (OR). O pecado fez com que se tornassem frágeis, limitados, e expulsos da presença divina. Porém, uma esperança restava ao homem: uma promessa, é (Gn 3,15), que é um protoevangelho a nos apontar uma prefiguração da Virgem Maria, aquela que esmaga a serpente e nos dá o Salvador.
Nas Escrituras, a palavra “Eu” escreve-se “Any”, com a inicial muda Álef (א), que é a primeira letra do abecedário hebraico. Ela é a primeira letra do nome Pai (Áb). Pode-se dizer que o sustentáculo do nosso “Eu” é a força do Criador e Pai. Sem tal força, nós nos tornamos pobres, como diz a Oração litúrgica: “Ó Deus, Sois o amparo dos que em Vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo...” E aqui reside outra curiosidade: a palavra “pobre” também tem a mesma sonoridade de “Eu”: é “Any”; mas seu início é com a letra hebraica Áin (ע).
Tornemo-nos aprendizes constantes da Sagrada Escritura, pois ela é nosso caminho, nosso pão, nossa força. Jesus, Senhor e Cristo, é a Palavra de Vida Eterna, como nos diz o evangelista João (6, 68).
Padre Ismar Dias de Matos, Colunista do Portal Ecclesia, Mestre em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor de filosofia e cultura religiosa na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
O primeiro elemento da criação divina, conforme a Sagrada Escritura, foi a luz, que em hebraico é OR, iniciada com Álef (א). Os significados dessa palavra (OR) são incontáveis. Praticamente tudo aquilo que é bom é também luz. Moisés é luz; Jesus é luz! O Gênesis nos revela: “Deus disse: haja luz, e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas” (1,3-4). Curiosidade: a palavra OR, iniciada com a também muda letra Áin (ע), significa “pele”.
O Gênesis nos diz que Adão e Eva, criados para a imortalidade, tinham a pele coberta de luz (OR). Quando desobedeceram ao Criador e caíram, pelo pecado, descobriram sua fragilidade e se perceberam “nus”. Ou seja, a luz divina que recobria a pele deles desaparecera e aí, então, viram apenas a sua pele (OR). O pecado fez com que se tornassem frágeis, limitados, e expulsos da presença divina. Porém, uma esperança restava ao homem: uma promessa, é (Gn 3,15), que é um protoevangelho a nos apontar uma prefiguração da Virgem Maria, aquela que esmaga a serpente e nos dá o Salvador.
Nas Escrituras, a palavra “Eu” escreve-se “Any”, com a inicial muda Álef (א), que é a primeira letra do abecedário hebraico. Ela é a primeira letra do nome Pai (Áb). Pode-se dizer que o sustentáculo do nosso “Eu” é a força do Criador e Pai. Sem tal força, nós nos tornamos pobres, como diz a Oração litúrgica: “Ó Deus, Sois o amparo dos que em Vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo...” E aqui reside outra curiosidade: a palavra “pobre” também tem a mesma sonoridade de “Eu”: é “Any”; mas seu início é com a letra hebraica Áin (ע).
Tornemo-nos aprendizes constantes da Sagrada Escritura, pois ela é nosso caminho, nosso pão, nossa força. Jesus, Senhor e Cristo, é a Palavra de Vida Eterna, como nos diz o evangelista João (6, 68).
Padre Ismar Dias de Matos, Colunista do Portal Ecclesia, Mestre em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor de filosofia e cultura religiosa na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Entender as Escrituras com o coração
Texto já publicado em 02/05/2013, às 20:28, http://www.portalecclesia.com/2013/05/entender-as-escrituras-com-o-coracao.html
A primeira letra da Torah Hebraica é Beit, que está na palavra Bereshit (que significa “no começo, no princípio); a última letra é Laméd, final da palavra Ishrael. Beit, além de ser a segunda letra do alfabeto hebraico, também significa casa. Vejamos, com a imaginação das crianças, a letra Beit que, com uma pequena diferenciação, também é lida como Veit: ela tem porta, teto e chão, como uma casa: ב
A Palavra de Deus é casa, é refúgio que nos abriga. Casa é seio: Seio de Abraão! Israel é casa. A esposa é casa. A família também é casa. O ser humano é casa, é morada do Espírito (Ruáh). A Arca de Noé (a Igreja) é casa. Jesus é casa. O Universo é Oikós, a grande casa.
A última letra da Torah (Laméd) é a mais alta de todas; parece um camelo; é camelo: לOs sábios que nos ensinam as Escrituras dizem que se uníssemos todas as letras da Torah, da primeira à última, passando no meio delas um fio, como se construíssemos um colar, veríamos que, quando a primeira letra (Beit ou Veit) tocasse a última (Laméd), poderíamos dizer que a última tornou-se, então, a primeira, ao formar o elo; formaríamos, assim, a palavra LeV, que significa, em hebraico, coração (ב ל). “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração” (Dt 6,5), eis o primeiro e grande mandamento.
Apenas o coração, sede da sabedoria, nos dá capacidade para ver e saborear a beleza e o mel que brotam das Sagradas Escrituras. Só se vê bem com o coração, disse Saint-Exupéry. O essencial é invisível aos olhos, ao cérebro, à razão. Sabedoria e sabor têm a mesma raiz. O sábio é aquele que degusta os ensinamentos e depois os transmite.
Conhecer as Escrituras Sagradas, do começo ao fim, é deixar-se impregnar por elas. Que entendamos aqui o verbo conhecer com o significado que lhe deu a Virgem Maria, Mãe de Jesus: “Como vai acontecer isso, se não conheço homem algum? (Lc 1,34). Conhecer algo é deixar-se impregnar ou engravidar-se por ele. O que é conhecido passa, então, a fazer parte de nós, nasce dentro de nós. As Sagradas Escrituras, meditadas dia e noite, devem tornar-se carne de nossa carne.
É preciso estar atento, rezar em todo o tempo, no Espírito (Ef 6,18). Aí poderemos até dormir, pois o sono é necessário ao Corpo-casa. Dormir sem perder o pensamento no(do) Senhor: "Eu durmo, mas meu coração vigia" (Ct 5,2).
Padre Ismar Dias de Matos, Colunista do Portal Ecclesia, Mestre em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor de filosofia e cultura religiosa na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
A primeira letra da Torah Hebraica é Beit, que está na palavra Bereshit (que significa “no começo, no princípio); a última letra é Laméd, final da palavra Ishrael. Beit, além de ser a segunda letra do alfabeto hebraico, também significa casa. Vejamos, com a imaginação das crianças, a letra Beit que, com uma pequena diferenciação, também é lida como Veit: ela tem porta, teto e chão, como uma casa: ב
A Palavra de Deus é casa, é refúgio que nos abriga. Casa é seio: Seio de Abraão! Israel é casa. A esposa é casa. A família também é casa. O ser humano é casa, é morada do Espírito (Ruáh). A Arca de Noé (a Igreja) é casa. Jesus é casa. O Universo é Oikós, a grande casa.
A última letra da Torah (Laméd) é a mais alta de todas; parece um camelo; é camelo: לOs sábios que nos ensinam as Escrituras dizem que se uníssemos todas as letras da Torah, da primeira à última, passando no meio delas um fio, como se construíssemos um colar, veríamos que, quando a primeira letra (Beit ou Veit) tocasse a última (Laméd), poderíamos dizer que a última tornou-se, então, a primeira, ao formar o elo; formaríamos, assim, a palavra LeV, que significa, em hebraico, coração (ב ל). “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração” (Dt 6,5), eis o primeiro e grande mandamento.
Apenas o coração, sede da sabedoria, nos dá capacidade para ver e saborear a beleza e o mel que brotam das Sagradas Escrituras. Só se vê bem com o coração, disse Saint-Exupéry. O essencial é invisível aos olhos, ao cérebro, à razão. Sabedoria e sabor têm a mesma raiz. O sábio é aquele que degusta os ensinamentos e depois os transmite.
Conhecer as Escrituras Sagradas, do começo ao fim, é deixar-se impregnar por elas. Que entendamos aqui o verbo conhecer com o significado que lhe deu a Virgem Maria, Mãe de Jesus: “Como vai acontecer isso, se não conheço homem algum? (Lc 1,34). Conhecer algo é deixar-se impregnar ou engravidar-se por ele. O que é conhecido passa, então, a fazer parte de nós, nasce dentro de nós. As Sagradas Escrituras, meditadas dia e noite, devem tornar-se carne de nossa carne.
É preciso estar atento, rezar em todo o tempo, no Espírito (Ef 6,18). Aí poderemos até dormir, pois o sono é necessário ao Corpo-casa. Dormir sem perder o pensamento no(do) Senhor: "Eu durmo, mas meu coração vigia" (Ct 5,2).
Padre Ismar Dias de Matos, Colunista do Portal Ecclesia, Mestre em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor de filosofia e cultura religiosa na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
O épico e o dialético em Grande Sertão: Veredas
A Ilíada e a Odisséia estão entre os principais textos formadores de nossa cultura ocidental. São dois textos épicos e, portanto, inaugurais de nosso Logos cultural. Neles o poeta, como intérprete da memória singular de seu povo, transforma-se em filósofo, coetâneo intérprete da consciência universal e da cultura. O aedo reconduz a consciência, antes dispersa na exterioridade imediata do mundo sensível, à sua espiritualidade, com uma mensagem universal. Ele transmite não a singularidade de suas vivências, mas a dimensão espiritual da consciência realizada no ethos de seu povo.
A epopéia inaugura a palavra como a nova morada do homem. No mundo épico, como diria Hegel, a palavra é a mediadora entre a Natureza e o Absoluto. Podemos dizer que o discurso épico é a exteriorização da consciência através da palavra, que denuncia a emergência do espírito de um povo para além da mítica realização do elemento divino nos elementos naturais. A elaboração do conceito, no plano consciente, é a continuação de um processo que começou desde que o homem balbuciou os primeiros sons.
O texto épico, gestado ao longo de muitos séculos, é o elemento que harmoniza a natureza e o espírito que nela comparece como força divina. A beleza épica da gênese da consciência reside no fato de que a ordenação e a unificação da realidade se processam, agora, sob a égide universalizante do mundo ético. A consciência começa a se configurar como povo, ou seja, como universalidade ética, e é neste sentido que Hegel vai falar de um retorno da consciência a si mesma.
Em nossa literatura, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, figura como um destes textos inaugurais. Riobaldo Tatarana, o personagem-narrador, nos apresenta a singularidade de suas vivências – o contexto vivido na jagunçagem do sertão – agora universalizadas no romance, em forma de conceitos e valores recriados através de sua narrativa alegórica. Pode-se dizer que o texto rosiano incorpora o ethos no cosmos e é pela mediação deste que a consciência adquire a universalidade ética. Em outras palavras: a particularidade da consciência narrativa de Riobaldo (Jagunço-narrador), inserida no contexto recriado do Cosmos-Sertão, atinge a epopéia de um Ethos Universal. O poeta-filósofo Riobaldo, vivendo o ócio de quem não “mói no asp’ro”, faz uma pausa, simbolizada pelos dois pontos [:] para contar, a partir das “Veredas”, aquilo que ele quer mostrar como “Grande Sertão”, e que está em toda parte. O “Sertão” singular, lugar da existência contingente, torna-se “Grande Sertão” (Cosmos, Universal), através da narrativa que reordena e revaloriza o vivido e lhe dá sentido. Refaz-se, aqui, o movimento da dialética mostrada por Hegel, e que Guimarães Rosa muito bem simbolizou na frase que serve de epígrafe da obra: “o diabo na rua, no meio de redemoinho”.
Ismar Dias de Matos, professor de Filosofia na PUC Minas.
A epopéia inaugura a palavra como a nova morada do homem. No mundo épico, como diria Hegel, a palavra é a mediadora entre a Natureza e o Absoluto. Podemos dizer que o discurso épico é a exteriorização da consciência através da palavra, que denuncia a emergência do espírito de um povo para além da mítica realização do elemento divino nos elementos naturais. A elaboração do conceito, no plano consciente, é a continuação de um processo que começou desde que o homem balbuciou os primeiros sons.
O texto épico, gestado ao longo de muitos séculos, é o elemento que harmoniza a natureza e o espírito que nela comparece como força divina. A beleza épica da gênese da consciência reside no fato de que a ordenação e a unificação da realidade se processam, agora, sob a égide universalizante do mundo ético. A consciência começa a se configurar como povo, ou seja, como universalidade ética, e é neste sentido que Hegel vai falar de um retorno da consciência a si mesma.
Em nossa literatura, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, figura como um destes textos inaugurais. Riobaldo Tatarana, o personagem-narrador, nos apresenta a singularidade de suas vivências – o contexto vivido na jagunçagem do sertão – agora universalizadas no romance, em forma de conceitos e valores recriados através de sua narrativa alegórica. Pode-se dizer que o texto rosiano incorpora o ethos no cosmos e é pela mediação deste que a consciência adquire a universalidade ética. Em outras palavras: a particularidade da consciência narrativa de Riobaldo (Jagunço-narrador), inserida no contexto recriado do Cosmos-Sertão, atinge a epopéia de um Ethos Universal. O poeta-filósofo Riobaldo, vivendo o ócio de quem não “mói no asp’ro”, faz uma pausa, simbolizada pelos dois pontos [:] para contar, a partir das “Veredas”, aquilo que ele quer mostrar como “Grande Sertão”, e que está em toda parte. O “Sertão” singular, lugar da existência contingente, torna-se “Grande Sertão” (Cosmos, Universal), através da narrativa que reordena e revaloriza o vivido e lhe dá sentido. Refaz-se, aqui, o movimento da dialética mostrada por Hegel, e que Guimarães Rosa muito bem simbolizou na frase que serve de epígrafe da obra: “o diabo na rua, no meio de redemoinho”.
Ismar Dias de Matos, professor de Filosofia na PUC Minas.
Avançar em direção das águas mais profundas
O verbo pensar deriva de pensum, que significa peso, em latim. É por isso que o ato de pensar nos cansa, pois lidamos com pesos. Gastamos muita energia, muitas calorias, ao exercitarmos o pensamento. Pensar também é dificultoso, não é algo simples e fácil. Talvez seja por isso que o mestre Rodin fez o seu Pensador em posição incômoda, a mão apoiando o queixo, e o cotovelo direito apoiado no joelho esquerdo. Experimente ficar nessa posição. Pensar pode começar com um exercício de memória, mas não é apenas revirar o pensado, o instituído, o comum; não se trata de repetir o que já é; o ato de pensar traz o inaugural, o novo, o revolucionário, por isso é difícil.
Pensar algo diferente daquilo que aí está é como nadar contra a correnteza, é como procurar cabelo em ovo; é como tirar leite de pedras. Talvez haja alguns exercícios que possamos fazer para aprendermos a pensar. Poderemos, por exemplo, começar a pentear o cabelo ou escovar os dentes com a mão esquerda, caso sejamos destros; tentar ir aos lugares usando outros caminhos nunca percorridos; singrar os “mares nunca dantes navegados”; ousar experimentar novos sabores, novos perfumes. Que outras atitudes podem ser tomadas?
Na adolescência, tive um professor de matemática, Francisco de Assis, que modificava diariamente a posição dos ponteiros de seu relógio de pulso, de modo que nunca sabíamos a hora quando olhássemos o relógio dele. Ele dizia que fazia aquilo para exercitar a memória e o pensamento quando olhasse as horas, pois era preciso fazer contas mentalmente, aumentando, por exemplo, cinquenta e dois minutos, ou diminuindo uma hora e dezessete minutos. Professor Francisco nos ensinava diferentes modos de resolver um exercício, muitos deles inventados por ele. Meu saudoso professor de filosofia, padre Celso de Carvalho (1913-2000), abotoava seu jaleco, em dias pares, com botões em número ímpar, e vice-versa. Também nunca voltava de um lugar passando pelo mesmo lado da rua. Foi com esse professor que aprendi a ousadia de avançar para águas sempre mais profundas.
Ismar Dias de Matos, presbítero católico, professor de filosofia e cultura religiosa na PUC Minas
Pensar algo diferente daquilo que aí está é como nadar contra a correnteza, é como procurar cabelo em ovo; é como tirar leite de pedras. Talvez haja alguns exercícios que possamos fazer para aprendermos a pensar. Poderemos, por exemplo, começar a pentear o cabelo ou escovar os dentes com a mão esquerda, caso sejamos destros; tentar ir aos lugares usando outros caminhos nunca percorridos; singrar os “mares nunca dantes navegados”; ousar experimentar novos sabores, novos perfumes. Que outras atitudes podem ser tomadas?
Na adolescência, tive um professor de matemática, Francisco de Assis, que modificava diariamente a posição dos ponteiros de seu relógio de pulso, de modo que nunca sabíamos a hora quando olhássemos o relógio dele. Ele dizia que fazia aquilo para exercitar a memória e o pensamento quando olhasse as horas, pois era preciso fazer contas mentalmente, aumentando, por exemplo, cinquenta e dois minutos, ou diminuindo uma hora e dezessete minutos. Professor Francisco nos ensinava diferentes modos de resolver um exercício, muitos deles inventados por ele. Meu saudoso professor de filosofia, padre Celso de Carvalho (1913-2000), abotoava seu jaleco, em dias pares, com botões em número ímpar, e vice-versa. Também nunca voltava de um lugar passando pelo mesmo lado da rua. Foi com esse professor que aprendi a ousadia de avançar para águas sempre mais profundas.
Ismar Dias de Matos, presbítero católico, professor de filosofia e cultura religiosa na PUC Minas
Quaresma e tráfico humano
No próximo dia 5 de março, Quarta-Feira de Cinzas, a Igreja inicia o tempo da Quaresma, um tempo especial que nos faz pensar nos quarenta anos em que o Povo de Deus perambulou pelo deserto em busca da Terra Prometida. As quatro décadas de provações serviram para amadurecer o povo para entrar na Terra da Libertação sem os vícios e os ídolos do cativeiro egípcio. Somente um povo novo, libertado, é capaz de fazer a travessia do cativeiro para a liberdade.
Durante esta Quaresma, a Igreja nos chama a viver a Campanha da Fraternidade (CF), cujo tema, nesse ano, é “Fraternidade e tráfico humano”, e o lema, tirado da carta de São Paulo aos Gálatas (5,1), é: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. O objetivo da CF-2014 é identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-las como violação da dignidade e da liberdade humana, mobilizando cristãos e a sociedade brasileira para erradicar esse mal, com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus.
Sabemos que o tráfico humano é tão antigo quanto a guerra na história da humanidade. O povo da Bíblia, por exemplo, foi escravizado por assírios, babilônios, egípcios etc. Quantas mutilações culturais e religiosas aconteceram? Inúmeras! Os europeus, nos últimos séculos do milênio passado, retiraram de terras africanas, durante vários séculos, milhões de homens e mulheres e os transformaram em peças de trabalho e de luxúria.
O tema da CF é atualíssimo, pois ultimamente os meios de comunicação nos falam de homens e mulheres – brasileiros e estrangeiros – que são submetidos a trabalhos degradantes em nosso território; sabemos também de inúmeros outros seres humanos que são levados para fora do País para serem explorados sexualmente por grupos que só visam o ganho de dinheiro a qualquer custo alheio. Não seria isso uma espécie de tráfico?
Se realmente acreditamos que “é para a liberdade que Cristo nos libertou”, vivamos esta Quaresma atentos a vida e a dignidade humana. É inconcebível a nossa tolerância a atitudes tão desumanas como essas tratadas pela CF. Em se tratando de tecnologia somos tão evoluídos, mas quando o assunto é gente e dignidade humana, ainda somos tão antigos quanto os homens da pedra lascada, infelizmente.
Prof. Pe. Ismar Dias de Matos
Durante esta Quaresma, a Igreja nos chama a viver a Campanha da Fraternidade (CF), cujo tema, nesse ano, é “Fraternidade e tráfico humano”, e o lema, tirado da carta de São Paulo aos Gálatas (5,1), é: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. O objetivo da CF-2014 é identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-las como violação da dignidade e da liberdade humana, mobilizando cristãos e a sociedade brasileira para erradicar esse mal, com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus.
Sabemos que o tráfico humano é tão antigo quanto a guerra na história da humanidade. O povo da Bíblia, por exemplo, foi escravizado por assírios, babilônios, egípcios etc. Quantas mutilações culturais e religiosas aconteceram? Inúmeras! Os europeus, nos últimos séculos do milênio passado, retiraram de terras africanas, durante vários séculos, milhões de homens e mulheres e os transformaram em peças de trabalho e de luxúria.
O tema da CF é atualíssimo, pois ultimamente os meios de comunicação nos falam de homens e mulheres – brasileiros e estrangeiros – que são submetidos a trabalhos degradantes em nosso território; sabemos também de inúmeros outros seres humanos que são levados para fora do País para serem explorados sexualmente por grupos que só visam o ganho de dinheiro a qualquer custo alheio. Não seria isso uma espécie de tráfico?
Se realmente acreditamos que “é para a liberdade que Cristo nos libertou”, vivamos esta Quaresma atentos a vida e a dignidade humana. É inconcebível a nossa tolerância a atitudes tão desumanas como essas tratadas pela CF. Em se tratando de tecnologia somos tão evoluídos, mas quando o assunto é gente e dignidade humana, ainda somos tão antigos quanto os homens da pedra lascada, infelizmente.
Prof. Pe. Ismar Dias de Matos
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Os doze atuais trabalhos de Hércules
Meus queridos discípulos de Cultura Grega, da PUC Minas: Os tempos mudaram na Grécia. Os gloriosos tempos do Olimpo já se foram. Estão gravados nas glórias da História, das literaturas em várias latitudes do ocidente. Gostaria que vocês, como exercício de Cultura Grega, listassem os 12 tradicionais trabalhos de Héracles (Hércules). Seu nome deriva de HERA (a esposa de Zeus) + KLÊS (que significa GLÓRIA). O filho de Zeus e Alcmena é, ao vencer os desafios, a Glória de Hera.
Para quem aceitar a tarefa, boa pesquisa.
Prof.Ismar Dias de Matos (p.ismar@pucminas.br) Obs: A charge que ilustra o texto é de autoria de BENETT, e está publicada na folha de São Paulo de hoje, 15 de fevereiro de 2012.
Para quem aceitar a tarefa, boa pesquisa.
Prof.Ismar Dias de Matos (p.ismar@pucminas.br) Obs: A charge que ilustra o texto é de autoria de BENETT, e está publicada na folha de São Paulo de hoje, 15 de fevereiro de 2012.
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